
Luana Ferraz
luanamcf@hotmail.com
Graduada em História pela Universidade Federal da Paraíba, autora do livro “Cartas de amor não doem” e do blog Invade e Fim, atualmente coordena um projeto de educação patrimonial da Prefeitura Municipal de João Pessoa, e presta serviços na Assessoria de Graduação do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes.
Publicado em 02/02/2012 às 09:59:00
Houve um equívoco no termo adotado pelos relacionamentos atuais, pois FICAR - pelo menos pra mim - é permanecer, e geralmente pessoas que permanecem, vão além das noitadas, das baladas surradas, onde homens e mulheres colecionam-se.
Ficar é um verbo forte que não condiz com essa atitude vulnerável, de beijos sem valores, esdrúxulos, que não preenchem nada, ao contrário, o vazio é até maior no dia seguinte.
As coleções mudaram, foram deixados de lado os selos, as moedas, os carrinhos de fricção, os papéis de carta, os álbuns de figurinhas, para se colecionar seres humanos, exatamente isto.
Em algumas festas, você consegue até preencher as três colunas com quatro linhas em uma página só. A loira, a morena, a ruiva, a mais feinha, a boazuada, a sobre efeito do álcool e por aí vai, e isto não se resume apenas ao sexo masculino, as mulheres também.
As escolhas têm se tornado tão fúteis que a linguagem até se encaixa nos padrões “figurinha repetida não preenche álbum”, o famoso “remember”, “flashback” e desta forma está indo embora cada vez mais o sentimentalismo, o valor ao próximo, e o seu próprio valor.
Falar em amor, paixão, namoro, casamento?! Pra quê?! Se existem palavras que se tornaram fórmulas certas para que as pessoas escapem pelas mãos, são estas. As amigas até preparam os conselhos “vá com calma, vai ficando, levando, não fala em namoro logo se não ele cai fora.”. Quem deve cair fora é você. Se seu mundo for um circo, parabéns, você encontrou o picadeiro certo, o palhaço (a) está atuando em um espetáculo e tanto, e você a mercê das vontades dele (a).
As esquinas estão cheias de individualismo perdidos. Não se vive mais por si, mas pelos outros, pelas atitudes comedidas, pelo medo de dar o primeiro passo, a primeira palavra. As perguntas foram ocultadas, omitidas pela maneira imbecil que se leva hoje o termo perder. Perder o quê?!
Nada mais do que o tempo, e não é o do outro é o seu. Falo, e não me canso de falar, minha boca por vezes fala muito mais do que a cabeça pensa, coisas soltas, encaixadas, mas que tem me feito aprender.
Cansei de evitar as frases, as palavras, de ir com calma, sei que equilíbrio, paciência, cautela são ingredientes para o sucesso, mas quando se trata de coração, quem consegue lidar com eles?
Sei bem que a respiração diafragmática ajuda em caso de ansiedade, no mais, degusta as tuas palavras, mas não deixa que elas desapareçam. Nem que seja por osmose, mas que no fim, o equilíbrio seja alcançado.
Quanta falta de escrúpulo, ter a mesma pessoa por uma noite, várias noites, meses, anos, tornou-se démodé, fazer planos então nem se fala, sentir-se envolvido é sensação de estar preso, por isto, tem que se correr logo.
Coração quando pressente tem que está em pulsação correta, nada de acelerar, mãos suando frio está justificado como Distonia.
Ninguém mais escreve cartas, poemas, pensamentos soltos de saudade, porque se tornou maneira pelo qual a pessoa pode se distanciar, mostrar-se apaixonado demais repele as pessoas, o segredo é manter-se frio, distante, deixar que ele(a) se chegue primeiro.
Pois bem, agora defino o termo certo; USAR. Quem utilizou pela primeira vez a expressão FICAR para definir esta atitude de beijos, abraços, amassos e transas para satisfazer momentaneamente a necessidade do outro, ou até mesmo a sua, acabou sendo infeliz.
Pela definição de valores, sem usar de termos pejorativos, FICAR é sem sombra de dúvidas permeável às atitudes de respeito, pois estas sim, são permanentes. Não queremos por uma noite, não queremos para desopilar das frustrações que a vida por vezes impõe.
Quanto a isto meu caro, garanto: é no mínimo material de consumo, que tem prazo de validade, a gente usa e quando não serve mais, joga fora.
Talvez, a escravidão de outrora, onde os negros eram mercadorias, seja hoje esta analogia, homens e mulheres mercadoria de consumo destes relacionamentos descartáveis.
Dr. Antonio W. B. C. Teixeira
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